sexta-feira, 5 de abril de 2013

Tutiyapalaiyam


A gente se acostuma com tudo. Com todos os pequenos detalhes que são muitas vezes diametralmente diferentes de tudo aquilo em meio ao que você cresceu e aprendeu a achar certo. A gente se acostuma às longas horas de introspecção em ônibus e trens apertados, e a não fazer idéia de onde vai dormir na próxima noite.  A dar uma risada sarcástica ao primeiro preço que te apresentam, mesmo sem saber o preço justo, e a iniciar longas negociações sobre uma diferença de 10 rúpias (~R$0,40). A suportar cada perrengue com um estoicismo espartano.

De vez em quando, porém, a estranheza bate, nos momentos mais prosaicos, quando por um ou outro motivo avaliamos mais friamente nossa situação. Da última vez, isso me aconteceu em uma tarde quente de Abril, enquanto eu sentava na porta (sempre) aberta de um trem, com as pernas pra fora, aproveitando o vento e observando os enormes campos de palmeiras do Sul da Índia correrem diante dos meus olhos. O trem parou em Tutiyapalaiyam, uma vilinha no meio do nada, nos confins do estado de Tamil Nadu, e a estação tinha apenas placas e cartazes em Tamil - nada em inglês. Ali estava ela, de novo comigo, a estranheza. Me dei conta de que estava em um trem entre Kochi e Chennai, a caminho para pegar um vôo para o Sri Lanka - três lugares que nunca planejei concretamente conhecer na vida. E de que tudo ao redor estava escrito e falado numa língua na qual jamais saberei dizer "bom dia". E de que dezenas de pessoas me olhavam com todo o espanto devido (e mais algum) à visão alienígena que era eu neste lugar. E de que eu estava a tantos mundos de distância física, cultural e comportamental daquelas pessoas que nem em um milhão de anos eu seria olhado diferentemente.

A estranheza também traz sua companheira inseparável, a insegurança. O medo. Afinal, também me dei conta de que tinha estado pendendo de um trem em alta velocidade, sem proteção, pela última meia hora. De que não só eu não saberia dizer "bom dia", mas também não saberia dizer "socorro". De que eu estava a milhares de quilômetros das pessoas e lugares que fazem com que eu me sinta seguro e amparado. De que a doença e o infortúnio podem me atingir a qualquer momento.

Tutiyapalaiyam é fundamental na minha vida, pois a estranheza e o medo me obrigam, sempre, a reavaliar o que estou comprando com eles, e se o preço vale a pena. Quatro meses depois de colocar o pé pra fora da soleira de casa rumo à mais longa série de "primeiras vezes" que provavelmente experimentarei na vida, esta é uma reflexão oportuna.

Viajar, e particularmente mochilar, tenho notado, é uma jornada muito mais ao interior de si mesmo do que em direção a cidades e monumentos. É a hora de pôr à prova todas as belas noções sobre você mesmo criadas no conforto da sua cama ou durante um banho quente em seu banheiro com papel higiênico em abundância. É aprender a achar normal o diferente, e a respeitar o profundamente diferente. É conhecer um executivo britânico que se tornou monge Hare Krishna há 15 anos durante uma viagem de turismo, ver sua enorme paz interior e a felicidade brilhando em seus olhos, e compreender que essa decisão faz todo o sentido do mundo pra ele. É ver uma fila quilométrica de peregrinos para tocar uma vaca que nasceu com uma quinta pata deformada e perceber imediatamente quantas coisas em sua própria cultura e religião pareceriam igualmente absurdas para esses mesmos peregrinos.

Mochilar é ser obrigado a se virar fora do domínio das relações pasteurizadas da civilidade ocidental - e a defender seu espaço, seu dinheiro, sua saúde, sua honra e sua vida sozinho, e com todas as armas que possui: com graça, com charme, com inteligência, com resiliência, com malícia, com agressividade e, em casos extremos que não me aconteceram, mas sim a amigos, até com violência. Na minha experiência, é ameaçar com uma surra a um proto-gangster com dureza o bastante para ele não querer pagar pra ver, ou virar a armação de um golpista contra ele próprio e ganhar com isso uma noite de graça num hotel. Ou, ainda, pode ser se submeter a passar 16 horas de conchinha com um respeitável senhor em um minúsculo leito de ônibus. E, também, ao meu ver, saber se desculpar e tentar consertar quando em sua abençoada ignorância você ameaçar o respeitável senhor e dormir de conchinha com o golpista.

Espiritualmente, especialmente na Índia, mochilar é conhecer dezenas de religiões, credos, rituais, e filosofias e reconhecer em cada um lampejos da sua própria verdade. E enxergar, para além do colorido repertório dos buscadores, a Busca que nos une a todos.

Viajar também me ensinou a reconhecer que o universo não dá a mínima pro cancioneiro cuidadosamente martelado dos nossos planos, e que ele é quem dá as grandes peças com as quais montamos o quebra-cabeças das nossas vidas. Reconhecer que podemos montar algo belo, algo tosco ou jogar as peças pra longe, mas que de nada adianta reclamar delas ou desejar que fossem outras. E, entendendo isso, tentar abraçar a serendipidade, construindo propósitos que inspirem em vez de planejamentos que frustrem.

Mochilar é um jeito de voltar a um estágio mais primitivo de vida - todos os dias, a prioridade é achar comida e abrigo, depois transporte e comunicação, tudo dentro do orçamento, e só depois você pensa no que tem de bom pra fazer. E ao nos trazer de volta ao básico, também nos mostra o labirinto de ilusões, irrelevâncias e vaidades que ocupa tanto das nossas vidas cotidianas. E, ao percebê-lo, ver mais tempo em nosso tempo e mais vida em nossa vida. Posso lembrar de praticamente todos os dias dos quatro meses da minha viagem, mas apenas poucos dos dias que formam meus anos de escritório anteriores. Há nisso sinais, e lições, que têm me tocado profundamente.

E, claro, também fazem parte de viajar os momentos sublimes de realização dos seus sonhos e embevecimento com as maravilhas de estar vivo, e do mundo que nos cerca. Impossível descrever meus sentimentos ao ver o nascer do sol nos Himalaias em Darjeeling, ver os raios da alvorada tornarem rosa o Taj Mahal, chorar de pura beleza sob o céu divinamente estrelado do deserto do Rajastão, mergulhar de barriga na neve pela primeira vez, escalar minha primeira montanha, ou voar de paragliding ao lado dos falcões no Nepal. Gratidão, orgulho, saudade, fome de viver, tudo-junto-e-misturado.

Em suma, é certo que viajar me deu mais do mundo, mas, principalmente, me deu mais de mim em mim mesmo. Me sinto mais forte, mais preparado, mais vivo. Acima de tudo, me sinto mais eu. Quando Tutiyapalaiyam me perguntou se valia a pena a estranheza e o desconforto, respondi que sem eles é que não valeria a pena. Quando ela, insistente, me perguntou se valia a pena o medo e a insegurança, descobri que havia achado dentro de mim o significado da genial frase de Pessoa: "os navios estão seguros nos portos, mas não foram feitos pra isso".

A viagem, é claro, não pode durar para sempre, e há quem diga que tudo isso que descrevi é um grande sonho só possível numa realidade paralela, longe da "vida real". Mas penso que talvez seja mesmo este o papel reservado pela Providência ao ato de viajar: tocar nossas almas de uma maneira tão intensa, profunda e indelével,  que a marca e a lembrança do sentimento de vida plena nos impulsionem a buscar a plenitude durante o resto de nossas vidas.

Desejo que cada um tenha sua Tutiyapalaiyam, e que todas elas sejam tão belas quanto a minha.



5 comentários:

  1. Muito show. Lendo consegui viajar um pouquinho até junto de você em cada um desses poucos momentos que você citou. Sei que não cheguei nem perto de sentir o medo, a dúvida, o prazer nem a realização que você está sentindo. Provavelmente eu nunca venha a me sentir assim, mas lendo consegui claramente entender todos esses sentimentos, tudo o que te move a continuar e não se arrepender. Parabéns pela conquista desse sonho de mochilagem, parte de mim queria estar com você nessa aventura, mas ai, com certeza tudo seria diferente, os medos, e prazeres seriam outros... quem sabe um dia!

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    1. Espero que um dia, meu irmão, espero que um dia eu consiga te arrastar, nem que seja pra Quixeramobim! =)

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  2. Cara, inspirador. REalmente seu texto me arrepiou. abraços e sorte nas próximas. ;)

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